Arquivo da tag: reflexão

Trecho – ” Os 13 bilhetes” | Por Carlos Juba #leitura #reflexão #crônica #amor #vida #amizade #arte

Trecho – ” Os 13 bilhetes” .:. Carlos Juba

Naquela dia ela dançou sozinha e chorou. Nem vassoura houve, artifício de anti-solidão. Ou a dança das cadeiras, pura queda. Chorou pingando pela sala água de olho e suor. Houvesse um espírito de qualquer-coisa -qualquer que falasse uma língua não-dita, talvez ouviria algum conselho. Era lua cheia, mas já não era tão verão. Não era outono também. Talvez tivesse que inventar uma estação. Ou um trem que partissse sem vaguear a partida ao meio, sem destrilhar seu coração numa poça.

De repente, se contorcendo de dor, como se pequenos nós atassem e desatassem incessantemente suas vísceras, abriu uma gaveta. Achou um punhado de papéis e uma oração amarela:

Que o universo lave
Do teu olho a inveja
Em sua secura chova luz
Dos braços tortos mova o abraço
Cumprimento corpo a corpo
Almas irmãs do clarão, elétrica e fogo
Que não assassinemos as crianças nossas
Órfãos que somos de nós mesmos
Velhos demais para morrermos livres
E novos demais para vivermos em grades
Transmutemos a repulsa em afeto
Os nomes em verbos
O adorno em nudez
O escândalo em silêncio
Transmutemos o desperdício em generosidade
O açoite em afago
As tesouras em laços
E o que deve morrer que morra
Nasça o anônimo iluminado
A criança vigorosa e desmedida
O tigre entre lanças
O peixe entre redes
O elefante de marfim
Os cavalos correm para lugar algum
Que nossos escudos de faísca e bronze
Amparem do infinito a dor
Rios de lágrimas desaguem
No nosso deus desconhecido
Terra adentro caminham também as águas
Como a lava andarilha o fogo
Brotem fontes aos nossos pés
Negros, molhados e humildes
Bradando em silêncio explosivo
O inominável Deus.

Leu. E parou de dançar. Talvez nunca tivesse ouvido o ruído do seu caduco coração. Se distraiu nesse palpitar estranho. Perturbada pelo seu próprio descompasso, parou de chorar. Deixou-se ouvir minutos a fio e sentindo uma liberdade atroz rachou por dentro. Abriram-se os diques, alagou as vastas terras que eram suas e por tal tamanho não as via. Espantou os ribeirinhos, afogou uns tantos. E os bichos correram por suas costas hipnotizados pelo abismo, só porque seco fosse, esquartejados pela gravidade e chão. Talvez naquele dia o deslumbre do que seria a liberdade fosse realmente quase um abismo. Das suas igrejas, sem remos, de longe, só se avistava a cruz. Nela molhada e abismada se agarrou. Silenciosamente chorou por dentro toda cinza, tempestade que era. Tudo aquilo era pior que dançar. Quis rasgar a oração, mas já não podia, lida, infinita que era, algemada na memória, por um instante, quis ser criança. Chorou alto de novo. Amarrou pedras aos pés e de cima da cruz quis se atirar. Mas havia chorado pouco, raso era, à morte não prestava. Resolveu ficar em silêncio, desceu da cruz, nadou até o abismo, rodopiou, dançou de novo por insistência do vento, caiu fundo e de tanto silêncio, já não tinha voz que clamasse o próprio corpo. Menos cinza ficava, mais amarela, todos os bichos desencavaram-se do abismo e rápido chegaram : já não havia corpo, nem costas. Ninguém tinha visto, nem o abismo, um sol com lábios tão bonitos.

Acesse o original aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, [Outros blogs]

Falácias e vidas despedaçadas #futilidade #vida #amor #medo #verdade #vítima #coragem

Falam, falam
E choram
Vítimas do mundo
mundanas
Coitadas, sempre sofridas
Chamam atenção e competem
Querendo ser sempre ouvidas
Passam por cima sem pesar
Pensam que se ocupar é amar
Esquecem-se das vísceras
Das premissas
Do caráter
E da própria carne
Engolem tudo
e enfiam tudo
Goela abaixo
E choram
E reclamam
Não acham que
estão por baixo
Pobres mundanas
Vítimas do mundo
Não sabem ainda o que é o castigo.

.:. Faiscador .:.

IMG_0556

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônica, Ideias, Impressões

Uma pergunta que pode te deixar mais próxima(o) da #felicidade e fazer você lidar melhor com a ilusão da #liberdade

Recebi um e-mail de uma conhecida muito antiga que me cadastrou em um mailing list. Não tivemos nenhum contato constante, sequer convivemos parte importante de nossas vidas. Nos conhecemos numa incrível e emocionante apresentação, um show do grande músico e guitarrista Carlos Santana, em Atlanta, EUA, há uns 10 anos atrás. Ela está atualizando um blog como colaboradora e pincei uma pergunta das 50 que ela enviou e que realmente me chamou a atenção para dar uma filosofada durante a hiperatividade noturna.

A primeira delas logo me chamou atenção, mas a última é a única que faz realmente sentido pra mim. Para poder escrever com sinceridade tive que ler todas vencendo a preguiça da leitura dinâmica para realmente me apropriar de minha opinião, mas a verdade é que as outras não me fizeram refletir de verdade. A única que merece o pedestal é a tal da reta final:

  • Decisions are being made right now.  The question is:  Are you making them for yourself, or are you letting others make them for you?

E aí volto ao Samba da Bênção do Poetinha…

(…)

Feito essa gente
que anda por aí brincando com a vida
Cuidado, companheiro
A vida é pra valer
Não se engane, não
É uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem sem provar
muito bem provado com certidão passada em cartório do Céu assinado em baixo: Deus!
E com firma reconhecida
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
embora haja tanto desencontro pela vida

(…)

E assim eu vou dormir tranquila hoje, depois de mais um dia cheio de surpresas, obstáculos e aprendizados. Uma coisa eu sei: não estou brincando com a minha vida, e essa sensação pessoal e absoluta me dá um conforto enorme. Minhas decisões são feitas por mim. Pelo menos esse conforto, em meio a tantos devaneios.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Ideias, Impressões

Nova etapa d’O mundo colorido de Francisca

Estou me sentindo como a mãe que leva o filho para o primeiro dia de aula e pensa: e agora? Agora que ele vai interagir mais com o mundo e andar com suas próprias pernas vai parar onde? Imagino que esta seja uma inquietude comum entre as mamães, e comigo não podia ser diferente em relação à Francisca. Depois de mais de dois anos de gestação ela veio ao mundo em 2013, com lançamentos em 23 de março e 21 de julho. Já vivemos grandes alegrias, e agora? Tomara que venham muitas surpresas!!

Mariana Leme, a ilustradora, e eu na Livraria Argumento
.:. Leblon, Rio de Janeiro – 21 de julho / 2013 .:.

Deixe um comentário

Arquivado em Foto, Impressões