Rio+20: Fronteiras Verdejantes

Há dois anos atrás fui visitar uma amiga em Nova Iorque no mês de abril e conheci uma espanhola durante o vôo. Ela nos ouviu falando português e assuntou, pois estava aprendendo a nossa língua. No meio da conversa recomendou o musical Fela! (http://www.felaonbroadway.com/) e a recomendação foi tão apaixonada que nem titubeamos em conferir.

O musical conta a história verídica de Fela Kuti, o lendário ativista e músico Nigeriano que foi precursor do Afrobeat. Sua paixão inspirou uma geração inteira e continua inspirando. Influenciado por sua mãe Funmilayo Ransome-Kuti, professora e ativista política  pelos direitos das mulheres, desafiou um governo militar corrupto e opressor usando a música como instrumento de luta em favor da liberdade e dos direitos humanos.

Em uma de suas músicas, “Teacher Don’t Teach Me Nonsense”[1], Fela entoa “If good-u teacher teach-ee something”[2]. Pelo visto Fela concordaria com Mencken, o jornalista polêmico citado no post Rio+20: Pensando na Terra (#2): todas as escolas deveriam ser queimadas e os professores que com ela reproduzem o status quo, enforcados…

Fela! me fez refletir sobre Educação e o papel dos professores. A marketização da Educação (globalização, valorização de rankings, imposição de linearidade x organicidade, modelo educacional mecânico que fomenta o conformismo) nos afasta do que é realmente importante. E os professores se transformam em reprodutores do status quo.

O livro de Orr Earth in Mind  (2004) citado no último post – que fala sobre a necessidade de um novo currículo educacional nesta nova era, de uma mudança de pensamento para um mundo mais sustentável – chama atenção, no capítulo 7, para o fato de que nem os prédios acadêmicos são arquitetonicamente projetados para facilitar o aprendizado. Eles confinam, ao invés de libertar os alunos para experimentar o mundo e fazer as conexões necessárias para desenvolver a criatividade que a vida requer.

Assim como a publicação de Orr, o livro “Green Frontiers: Environmental Educators Dancing Away From Mechanism[3]” (2008), de Gray-Donald e Selby, também defende o iluminismo ambiental. O livro reúne ensaios de diversos autores, misturando histórias e experiências pessoais com conceitos, o que muito me agradou.

A primeira parte do livro, intitulada “What are our bearings?”[4], questiona o conceito de Educação Ambiental, declarando que experiências pessoais e outras formas de influências formativas são a verdadeira chave para despertar nas pessoas um comportamento positivo em relação à Natureza. Não a escolarização.

No capítulo “Narratives of Exploration”[5], Gray-Donald diz que acredita que exista uma variedade imensa de material sobre Educação Ambiental mundo afora (pág. 14).  Em diversas línguas. Eu não pude deixar de discordar ao fazer comparações com o Brasil. O próprio livro dele não está disponível nas livrarias brasileiras…

Além disso, muitos dos conceitos debatidos durante o curso eu não pude encontrar em português.  Não que aqui nós não damos a devida importância ao assunto, mas creio que o tema ainda esteja avançando devagar.

Os livros mais interessantes sobre ecologia e sustentabilidade não são traduzidos para o português, ou então não são nem vendidos. O material que encontro na rede é restrito aos textos acadêmicos.

O fato de a ecologia ter sido ligada aos ecochatos durante muito tempo também contribui para a falta de disseminação das ideias. O público em geral não tem acesso a conteúdo sério, de qualidade e com linguagem simplificada.

Até arrisco dizer que na América Latina a consciência pelos tópicos ambientais  é ainda menor do que na América do Norte, Europa Ocidental e Austrália. Tanto que a Educação Ambiental ainda é muito fraca nos currículos escolares, principalmente nas escolas públicas.

E vista como assunto secundário.

Você sabia…

Que a mãe de Fela foi a primeira ativista feminina da Nigéria e a primeira mulher a dirigir um automóvel no país?


[1] Tradução livre – “Professor, não me ensine bobagens.”

[2] Tradução livre – “Se você é bom, professor, me ensine algo que preste.”

[3] Tradução livre – “Fronteiras Verdejantes: Educadores Ambientais Fora do Sistema”

[4] Tradução livre –  “Quais os nossos limites?”

[5] Tradução livre – “Narrativas da Exploração”

————————————

Bibliografia:

Gray-Donald, James and David Selby. eds. (2008).  Green Frontiers:  Environmental Educators Dancing Away from Mechanism.  Rotterdam: Sense Publishers.

Orr, D. (2004). Earth in Mind. On Education, Environment, and the Human Prospect. Washington, D.C.: Island Press.

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Arquivado em Educação, Livros, Sustentabilidade

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