Rio+20: Pensando na Terra (#2)

“Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” Paulo Freire

“Earth in Mind – On Education, Environment, and the Human Prospect”, de David Orr (2004) ou “Pensando na Terra – Em Educação, Meio Ambiente e a Perspectiva Humana”[1], é um livro que fala essencialmente sobre Educação para a Sustentabilidade criticando o sistema educacional norte-americano, o capitalismo e a globalização. As perguntas feitas pelo autor na introdução (Introdução, pág. xii) que mais me chamaram a atenção foram:

  1. Como preparar a juventude para discernir o que é importante culturalmente?
  2. Como preparar os jovens para que compreendam sistemas, padrões e contextualização numa sociedade distraída pelo entretenimento e que tende à especialização?
  3. Como equipar as novas gerações para que dêem valor aos alimentos saudáveis?
  4. Como ensinar o valor da lei numa sociedade injusta?
  5. Como ensinar democracia, equidade, cidadania e valores sociais?

E a pergunta que pode sintetizar todas elas: Como ensinar esses cidadãos a honrar o planeta e a pensar criticamente se os confinamos dentro de bolhas reprodutoras do status quo?

Vivemos numa sociedade autodestrutiva com valores distorcidos, o que faz com que todas essas perguntas sejam ainda mais desafiadoras. O autor chama atenção para uma reflexão sobre a educação formal vigente, lembrando que somos todos aprendizes durante toda a vida, como John Dewey (2007) já defendia.

Essa educação continuada vai contra a ‘pedagogia do oprimido’, como chamava Paulo Freire. Freire foi o mentor da educação para a consciência e dizia que o objetivo da escola é ensinar o aluno a “ler o mundo” para poder transformá-lo.

David Orr (2004)  chama atenção para a as mudanças ecológicas que o mundo vem enfrentando. Ele afirma: “Contrariando todas as probabilidades, os contornos de uma iluminação ecológica global começaram a surgir.” (Introdução, página xiv).

Esta declaração é especialmente interessante e foi tema do post de 1o  de fevereiro de 2010 no meu antigo blog, que intitulei Iluminismo Ambiental: Você tem sede de que? Você tem fome de que?. A reflexão chamava atenção para a necessidade de uma mudança de valores em relação ao conhecimento  da humanidade e citando meu professor de Educação para a Sustentabilidade: “Uma mudança de consciência – que é vital para a mudança de comportamento – é muito difícil de alcançar, e exige o processo desafiador e lento de desaprender e reaprender.” (Robert Farrell, debate em sala de aula, 2010).

Tirando o fato de que nossa sociedade está questionando cada vez mais os valores socioeconômicos que surgiram com a globalização, políticos e formuladores de políticas públicas continuam aplicando esses mesmos valores aos sistemas educacionais.   Pablo Gentili, no livro Pedagogia da Exclusão: Crítica ao Neoliberalismo em Educação (1995), afirma que a globalização reforça o processo de alienação e alimenta a lógica excludente do capitalismo.

As escolas são reprodutoras do status quo e não desenvolvem o senso crítico dos alunos. Oferecem uma “educação bancária”, como denominou Paulo Freire.

David Orr no capítulo 3, “O Problema da Educação”[2], cita o jornalista americano H.L. Mencken que disse que bastava queimar todas as escolas e enforcar os professores para que o sistema educacional melhorasse[3]

“H.L. Mencken concluded that significant improvement required only that the schools be burned to the ground and all of the professorate be hanged.”

Termino minha reflexão com essa declaração fortíssima para começar a semana de forma polêmica.

Até breve!



[1] Tradução livre.

[2]  Tradução livre – ‘The Problem of Education” (Orr, 2004, p. 26)

[3] Tradução livre – “H.L. Mencken concluded that significant improvement required only that the schools be burned to the ground and all of the professorate be hanged.”

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Bibliografia:

Dewey, J. (2007). Democracy and education. Middlesex: The Echo Library.

Freire, P. (1921). Pedagogy of the Oppressed. New York: The Continuum International Publishing Group Inc.

Gentili, P. (1995). Pedagogia da Exclusão: Crítica ao Neoliberalismo em Educação. Petrópolis: Vozes.

Orr, D. (2004). Earth in Mind. On Education, Environment, and the Human Prospect. Washington, D.C.: Island Press.

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Arquivado em Educação, Livros, Sustentabilidade

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