Arquivo do mês: maio 2012

Rio+20: Fronteiras Verdejantes

Há dois anos atrás fui visitar uma amiga em Nova Iorque no mês de abril e conheci uma espanhola durante o vôo. Ela nos ouviu falando português e assuntou, pois estava aprendendo a nossa língua. No meio da conversa recomendou o musical Fela! (http://www.felaonbroadway.com/) e a recomendação foi tão apaixonada que nem titubeamos em conferir.

O musical conta a história verídica de Fela Kuti, o lendário ativista e músico Nigeriano que foi precursor do Afrobeat. Sua paixão inspirou uma geração inteira e continua inspirando. Influenciado por sua mãe Funmilayo Ransome-Kuti, professora e ativista política  pelos direitos das mulheres, desafiou um governo militar corrupto e opressor usando a música como instrumento de luta em favor da liberdade e dos direitos humanos.

Em uma de suas músicas, “Teacher Don’t Teach Me Nonsense”[1], Fela entoa “If good-u teacher teach-ee something”[2]. Pelo visto Fela concordaria com Mencken, o jornalista polêmico citado no post Rio+20: Pensando na Terra (#2): todas as escolas deveriam ser queimadas e os professores que com ela reproduzem o status quo, enforcados…

Fela! me fez refletir sobre Educação e o papel dos professores. A marketização da Educação (globalização, valorização de rankings, imposição de linearidade x organicidade, modelo educacional mecânico que fomenta o conformismo) nos afasta do que é realmente importante. E os professores se transformam em reprodutores do status quo.

O livro de Orr Earth in Mind  (2004) citado no último post – que fala sobre a necessidade de um novo currículo educacional nesta nova era, de uma mudança de pensamento para um mundo mais sustentável – chama atenção, no capítulo 7, para o fato de que nem os prédios acadêmicos são arquitetonicamente projetados para facilitar o aprendizado. Eles confinam, ao invés de libertar os alunos para experimentar o mundo e fazer as conexões necessárias para desenvolver a criatividade que a vida requer.

Assim como a publicação de Orr, o livro “Green Frontiers: Environmental Educators Dancing Away From Mechanism[3]” (2008), de Gray-Donald e Selby, também defende o iluminismo ambiental. O livro reúne ensaios de diversos autores, misturando histórias e experiências pessoais com conceitos, o que muito me agradou.

A primeira parte do livro, intitulada “What are our bearings?”[4], questiona o conceito de Educação Ambiental, declarando que experiências pessoais e outras formas de influências formativas são a verdadeira chave para despertar nas pessoas um comportamento positivo em relação à Natureza. Não a escolarização.

No capítulo “Narratives of Exploration”[5], Gray-Donald diz que acredita que exista uma variedade imensa de material sobre Educação Ambiental mundo afora (pág. 14).  Em diversas línguas. Eu não pude deixar de discordar ao fazer comparações com o Brasil. O próprio livro dele não está disponível nas livrarias brasileiras…

Além disso, muitos dos conceitos debatidos durante o curso eu não pude encontrar em português.  Não que aqui nós não damos a devida importância ao assunto, mas creio que o tema ainda esteja avançando devagar.

Os livros mais interessantes sobre ecologia e sustentabilidade não são traduzidos para o português, ou então não são nem vendidos. O material que encontro na rede é restrito aos textos acadêmicos.

O fato de a ecologia ter sido ligada aos ecochatos durante muito tempo também contribui para a falta de disseminação das ideias. O público em geral não tem acesso a conteúdo sério, de qualidade e com linguagem simplificada.

Até arrisco dizer que na América Latina a consciência pelos tópicos ambientais  é ainda menor do que na América do Norte, Europa Ocidental e Austrália. Tanto que a Educação Ambiental ainda é muito fraca nos currículos escolares, principalmente nas escolas públicas.

E vista como assunto secundário.

Você sabia…

Que a mãe de Fela foi a primeira ativista feminina da Nigéria e a primeira mulher a dirigir um automóvel no país?


[1] Tradução livre – “Professor, não me ensine bobagens.”

[2] Tradução livre – “Se você é bom, professor, me ensine algo que preste.”

[3] Tradução livre – “Fronteiras Verdejantes: Educadores Ambientais Fora do Sistema”

[4] Tradução livre –  “Quais os nossos limites?”

[5] Tradução livre – “Narrativas da Exploração”

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Bibliografia:

Gray-Donald, James and David Selby. eds. (2008).  Green Frontiers:  Environmental Educators Dancing Away from Mechanism.  Rotterdam: Sense Publishers.

Orr, D. (2004). Earth in Mind. On Education, Environment, and the Human Prospect. Washington, D.C.: Island Press.

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Rio+20: Pensando na Terra (#2)

“Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” Paulo Freire

“Earth in Mind – On Education, Environment, and the Human Prospect”, de David Orr (2004) ou “Pensando na Terra – Em Educação, Meio Ambiente e a Perspectiva Humana”[1], é um livro que fala essencialmente sobre Educação para a Sustentabilidade criticando o sistema educacional norte-americano, o capitalismo e a globalização. As perguntas feitas pelo autor na introdução (Introdução, pág. xii) que mais me chamaram a atenção foram:

  1. Como preparar a juventude para discernir o que é importante culturalmente?
  2. Como preparar os jovens para que compreendam sistemas, padrões e contextualização numa sociedade distraída pelo entretenimento e que tende à especialização?
  3. Como equipar as novas gerações para que dêem valor aos alimentos saudáveis?
  4. Como ensinar o valor da lei numa sociedade injusta?
  5. Como ensinar democracia, equidade, cidadania e valores sociais?

E a pergunta que pode sintetizar todas elas: Como ensinar esses cidadãos a honrar o planeta e a pensar criticamente se os confinamos dentro de bolhas reprodutoras do status quo?

Vivemos numa sociedade autodestrutiva com valores distorcidos, o que faz com que todas essas perguntas sejam ainda mais desafiadoras. O autor chama atenção para uma reflexão sobre a educação formal vigente, lembrando que somos todos aprendizes durante toda a vida, como John Dewey (2007) já defendia.

Essa educação continuada vai contra a ‘pedagogia do oprimido’, como chamava Paulo Freire. Freire foi o mentor da educação para a consciência e dizia que o objetivo da escola é ensinar o aluno a “ler o mundo” para poder transformá-lo.

David Orr (2004)  chama atenção para a as mudanças ecológicas que o mundo vem enfrentando. Ele afirma: “Contrariando todas as probabilidades, os contornos de uma iluminação ecológica global começaram a surgir.” (Introdução, página xiv).

Esta declaração é especialmente interessante e foi tema do post de 1o  de fevereiro de 2010 no meu antigo blog, que intitulei Iluminismo Ambiental: Você tem sede de que? Você tem fome de que?. A reflexão chamava atenção para a necessidade de uma mudança de valores em relação ao conhecimento  da humanidade e citando meu professor de Educação para a Sustentabilidade: “Uma mudança de consciência – que é vital para a mudança de comportamento – é muito difícil de alcançar, e exige o processo desafiador e lento de desaprender e reaprender.” (Robert Farrell, debate em sala de aula, 2010).

Tirando o fato de que nossa sociedade está questionando cada vez mais os valores socioeconômicos que surgiram com a globalização, políticos e formuladores de políticas públicas continuam aplicando esses mesmos valores aos sistemas educacionais.   Pablo Gentili, no livro Pedagogia da Exclusão: Crítica ao Neoliberalismo em Educação (1995), afirma que a globalização reforça o processo de alienação e alimenta a lógica excludente do capitalismo.

As escolas são reprodutoras do status quo e não desenvolvem o senso crítico dos alunos. Oferecem uma “educação bancária”, como denominou Paulo Freire.

David Orr no capítulo 3, “O Problema da Educação”[2], cita o jornalista americano H.L. Mencken que disse que bastava queimar todas as escolas e enforcar os professores para que o sistema educacional melhorasse[3]

“H.L. Mencken concluded that significant improvement required only that the schools be burned to the ground and all of the professorate be hanged.”

Termino minha reflexão com essa declaração fortíssima para começar a semana de forma polêmica.

Até breve!



[1] Tradução livre.

[2]  Tradução livre – ‘The Problem of Education” (Orr, 2004, p. 26)

[3] Tradução livre – “H.L. Mencken concluded that significant improvement required only that the schools be burned to the ground and all of the professorate be hanged.”

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Bibliografia:

Dewey, J. (2007). Democracy and education. Middlesex: The Echo Library.

Freire, P. (1921). Pedagogy of the Oppressed. New York: The Continuum International Publishing Group Inc.

Gentili, P. (1995). Pedagogia da Exclusão: Crítica ao Neoliberalismo em Educação. Petrópolis: Vozes.

Orr, D. (2004). Earth in Mind. On Education, Environment, and the Human Prospect. Washington, D.C.: Island Press.

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Rio+20: Pensando na Terra (#1)

We are technologically sophisticated and morally retarded.

Stephen Best

Durante os 13 meses que passei estudando nos EUA (2009-2010) não consegui encontrar os livros recomendados no Brasil. Enquanto pesquisava os assuntos em português para fazer um paralelo com a minha pátria nas tarefas acadêmicas – e também tirar ideias para o meu antigo blog http://www.ideiasemgotas.blogspot.com.br –  acabei caindo na real que muitos dos assuntos destrinchados no curso não eram tão difundidos no Brasil. E ainda não são. Faltam livros, mas, principalmente, faltam debate e discussão. Agora, nas vésperas da Rio+20, me inspirei em traduzir meus ensaios prediletos para despertar novas reflexões.

No primeiro post da semana que vem  vou falar sobre o livro “Earth in Mind”, do autor David Orr (2004), que está à venda na Saraiva (seção de Livros Importados). Apesar do título ser “Pensando na Terra – Em Educação, Meio Ambiente e a Perspectiva Humana”[1] a livraria catalogou o livro na subseção Administração / Adm. De RH e Terceirização…  O livro é basicamente sobre Educação e semana que vem começo meu post com devaneios baseados nas perguntas que o autor faz na introdução da 10aEdição de Aniversário.

Até breve!

 

San Antonio Pass. It’s in the north of peru, near the city “Huaraz”.

 


[1] Tradução livre.

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